• Cátia Almeida

Corpos Reais - um movimento inclusivo ou exclusivo?

Hoje quando estava a navegar pelo meu instagram pessoal dei de caras com um post de uma influencer onde tinha uma foto em bikini e dizia na legenda que acha que o tema dos Corpos Reais só fala de mulheres com estrias e celulite e que exclui as mulheres que, como ela, têm corpos sem celulite, sem estrias e com o peso "indicado". Além disso dizia que as mulheres como ela trabalham mais do que as outras e por isso é que têm este corpo "perfeito" porque fazem sacrifícios pessoais como deixar de ir à praia para treinar no ginásio, ou deixar de beber ou comer certos alimentos.

Ora bem, em primeiro lugar tenho de começar por dizer que o movimento Corpos Reais não é um movimento contra as mulheres que acham que têm o corpo "perfeito". Não é contra quem faz ginásio, tem silicone, mete botox, faz tratamentos de estética e veste um 34. Este movimento não exclui absolutamente ninguém porque corpos reais são os de todas as pessoas que vivem e respiram neste mundo porque, que se saiba, ainda não existem corpos de realidade virtual a passear por aqui.

O problema deste discurso é que está, mais uma vez, a definir que o corpo da mulher magra, sem celulite, sem estrias e aclamado por todas a sociedade como "perfeito" é sinónimo de vida saudável, o que é falso, e que elas são o exemplo a seguir, deixando implícito que todas as mulheres que não são assim deviam ser e se não são é porque são desleixadas, preguiçosas e não se esforçam para isso.

O que as pessoas e as marcas que defendem este movimento é representatividade. O que significa isso? Significa que queremos que TODAS as mulheres, TODOS os tipos de corpos sejam representados nos media, nas revistas, na moda, na música, nos desfiles, etc. Porque as demais mulheres já lá estão representadas há anos!

Desde pequeninas que nós somos bombardeadas com imagens de corpos perfeitos em revistas, artigos como «emagreça 6kg numa semana!» «faça isto para ter o corpo de verão de sonho!» «dieta sem carbo-hidratos para secar a barriga em 5 dias!» e isto, queridas mulheres, é precisamente o que nós queremos abolir na sociedade! É esta ditadura que nos obriga a esconder ou a corrigir as "imperfeições" como se ter um corpo de modelo fosse o caminho para a felicidade, para a nossa aceitação e para o amor próprio. Não é!

O caminho para a aceitação e o amor próprio é precisamente pararmos de assumir que uma pessoa saudável é aquela que faz ginásio todos os dias e faz restrições alimentares para alcançar a perfeição. Achar que as estrias e a celulite são problemas de quem não tem cuidado com o corpo, isso sim, é irreal. Achar que o excesso de peso deriva exclusivamente da alimentação é irreal. Há inúmeras condicionantes como doenças relacionadas com tiroide, diabetes, hormonas, genética, o uso de certos medicamentos, etc. que influenciam o peso e, por conseguinte, o aspecto do corpo e, pasmem-se só, essas pessoas podem e têm uma vida saudável!

Se as marcas estão a usar o movimento Corpos Reais nas suas campanhas é precisamente para incluir mulheres fora dos estereótipos e padrões de beleza actuais, para incluir mulheres com curvas, mulheres com celulite, dentes tortos, cabelo curto, sardas, acne... tudo aquilo que foi escondido durante anos, como se não fosse bonito ou normal!

Com isto não quero dizer que sou contra cuidarmos de nós, do nosso corpo, da nossa alimentação. Não sou contra fazer tratamentos de estética, botoxes, silicones ou o que for, pelo contrário, cada mulher faz aquilo que lhe apetece para se sentir bem consigo mesma!

O importante é refletir no porquê de o fazermos, se é realmente por nós mesmas ou se é porque alguém ou a sociedade nos obriga a isso para sermos mulheres perfeitas.

É muito importante que este movimento não seja deitado abaixo nem visto da forma errada. É importante haver pessoas e marcas que o defendam e, por isso, é com imenso orgulho que eu defendo o movimento Corpos Reais na Vanilla Vice, porque acredito genuinamente que todas merecemos sentirmo-nos bem, aceites e especialmente representadas na indústria da moda e da beleza como mulheres normais e reais e não como mulheres a ser corrigidas ou escondidas.

Mais Amor Próprio, Respeito e Empatia! São pilares para uma sociedade melhor :)